
Ser entregador da Veneto Pizzaria é o emprego dos sonhos. E não é porque eu ganho bem pra caramba ou me contento com pouco não, é porque se eu fosse fazer um livro, eu teria era história pra contar.
Outro dia mesmo fui entregar uma pizza ali no Edifício Córdoba e não quis ir embora. No apartamento 202, duas moças, de uns 25, 30 anos, por aí, vieram me receber. Tava tocando Ana Carolina na sala. Elas estavam com os cabelos bagunçados, sorrisos no rosto e em cima da mesa tinha uma garrafa de vinho. Ah, garoto! Ainda tentei puxar um papo, pra quem sabe, assim, participar da festa, mas não rolou. Aquelas ali pareciam duas onças no cio, doidas pra fechar a porta. E fecharam mesmo. Se eu pudesse fazer um pedido, naquela hora, seria um olho mágico do lado invertido.
Desci o elevador, subi na moto e parti pra próxima entrega, sem tirar as meninas do 202 da cabeça. Parei no sinal, ao lado de um Gol vermelho rebaixado, com um playboy ao volante e mais três caras. O motorista me xingou, falando que eu tinha fechado ele na curva. Tentei conversar e o que eu ganhei foi um cuspe no capacete, umas risadas daqueles pitboyzinhos filhos da puta e uma arrancada do Gol turbinado.
Até tinha gravado a placa do indivíduo, mas deixei pra lá. Tinha outra entrega pra fazer. E era até uma das entregas que eu mais gostava de fazer, no Edifício Major Campos, pra um casal do 104, bem gente fina.
Eles viviam pedindo pizza da Veneto. Acho que tem mais de um ano que entrego pizza pra eles: metade frango com catupiry, metade calabresa. Sempre estavam sorrindo, me davam gorjeta, me desejavam boa noite e ouviam músicas boas.
Fui pra próxima entrega, a dois quarteirões dali. Era em uma casa. Da rua dava pra ouvir: Chiclete com Banana, e nas alturas. Cheguei no portão e percebi que o som vinha de um carro estacionado na garagem: Gol, vermelho, rebaixado e com placa que eu gravei. Era ali que eu iria me vingar daquela cambada de playboys. Abri a pizza portuguesa e cuspi. Cuspi tudo o que eu poderia cuspir de uma vez só. Entreguei a pizza e desejei o primeiro “bom apetite” irônico da minha vida.
Uma paz interior tomou conta de mim naquele momento, um sorriso com um ar de “se fuderam” também. Voltei para pizzaria, prestei conta das entregas e fui pra casa.
No sábado seguinte, começava mais uma maratona de entregas e histórias. Dessa vez tinha a Dona Lucinda, uma coroa feia que quando bebe me recebe toda tarada. Também tinha o Benício, um tatuador vegetariano, que pedia pizza de marguerita e que quando abria a porta, me fazia fumar maconha só com o cheiro, e também tinha a minha entrega preferida, pro casal gente fina do Major Campos.
Mas nesse dia, quando cheguei lá, só ele me atendeu. Tava com uma cara que dava pena. Entreguei a pizza de calabresa, sem a metade de frango com catupiry e não recebi nem boa noite, nem sorriso, nem gorjeta.
Fui pra próxima entrega, num edifício ali perto, no apartamento 103. Quando toquei a campainha e vi ela abrindo a porta, me surpreendi: era ela, a moça gente fina que estava em outro apê, pedindo pizza de frango com catupiry, sem a metade calabresa. E também sem sorrisos, sem boa noite e sem gorjeta.
Só sei que naquela noite, quando deu a hora de voltar pra casa, só me vinha a imagem da cara de tristeza dos dois “gente-finas”.
Passou a semana e chegou mais um sábado, um dos mais movimentados nos últimos meses. Tinham muitas entregas, e lá fui eu.
Naquela noite teve o Benicio, aquele tatuador. Ele me ofereceu uma tragadinha, eu não resisti e aceitei: sabia a quantidade de trabalho que teria pela frente e precisava relaxar. Depois tinha uma entrega no Edifício Córdoba, apartamento 202. Sim, eram elas: as lésbicas. Antes de tocar a campainha dei uma ajeitada nas sobrancelhas com o dedo mindinho e pronto. Uma delas atendeu e puxou a minha mão junto com a caixa de pizza. Eu entrei e dessa vez teve festa, sim senhor.
Só que eu atrasei as entregas seguintes.
Subi na moto me sentindo um menino que acabava de sair de uma loja de doces e parti pra casa da Dona Lucinda, a coroa tarada. Ela me ofereceu whisky, eu aceitei e ela disse que achava minhas sobrancelhas lindas. O dedo mindinho como pente deu certo.
Próxima entrega, também atrasada: casa dos pitboys. Pizza portuguesa de novo. E com cuspe de novo. Eles não deixaram de ser aqueles pitboys marrentos e eu não deixei de fazer justiça. Cuspi mesmo. Sensação de dever cumprido. Só que com entregas atrasadas.
Voltei para a pizzaria e separei as próximas entregas. Uma era de calabresa, do cara gente fina, e a outra era de frango com catupiry, da moça gente fina. Pelo jeito, ainda separados.
Olhei para os lados, não percebi ninguém me observando e fiz o que tinha que ser feito: dividi as pizzas e troquei as caixas. Para ele, deixei somente metade da pizza de frango com catupiry, pra ela só metade calabresa. Dentro de cada caixa, coloquei um bilhete escrito: “Não é só metade da minha pizza que está faltando, é você também.” E como tinha o telefone deles na pizzaria, assinei o bilhete com os telefones um do outro no final.
Voltei pra moto, entreguei as pizzas, peguei a grana dos dois e saí correndo pra não dar a chance deles perceberem a troca.
Fiz as entregas restantes e voltei pra Veneto quebrado. Aquele sábado tinha sido demais. Seu Giulliano, dono da pizzaria, me chamou para uma conversa no escritório no fim da noite. Resultado: eu estava demitido: por ter sido visto fumando maconha, por ter atrasado as entregas, por ter cuspido em uma das pizzas e por ter seduzido a irmã dele, Dona Lucinda. Coroa feia, filha da puta.
Voltei para casa de novo. Desempregado. Mas não estava me sentindo tão preocupado com isso. Foi um dia em que eu fiz tudo o que queria fazer, e com uma só consequência negativa. Com certeza eu ganhei mais do que perdi.
A semana passou e na sexta-feira à tarde, meu telefone toca.
Era o Seu Giulliano. Ele me queria de volta na pizzaria Veneto, mas não sabia explicar direito o porquê: “Parece que dois clientes assíduos imploraram para você voltar porque você trocou as pizzas e fez tudo certo”.
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